quinta-feira, 20 de junho de 2013

Filhos da rua


Ano passado, o jornal Zero Hora publicou uma série de reportagens relativas a situação de criança e adolescentes em situação de rua na cidade de Porto Alegre, sem dúvida o retrato apresentado nos demonstra que ainda falta muito para garantir os direitos das crianças e adolescentes em nosso país. 


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Filho da Rua



Jornal Zero Hora em 17/06/2012 


Em reportagem especial, ZH segue os passos de uma criança que peregrina pelas ruas desde os cinco anos


Felipe vive nas ruas de Porto Alegre desde os cinco anos
Foto: Jefferson Botega

Letícia Duarte


Nesta reportagem especial, você vai conhecer os passos de um menino que peregrina há nove anos pelas esquinas sem que ninguém consiga detê-lo. Com autorização do Juizado da Infância e da Juventude, ZH acompanha a jornada de Felipe (nome fictício) desde março de 2009. Identificado entre 383 crianças e adolescentes em situação de rua em censo realizado na Capital em 2008, o guri hoje com 14 anos tem uma história que revela um pouco de todos eles.

Para contá-la, ZH reconstituiu sua trajetória.

Desde a casa onde Felipe cresceu até as calçadas em que dormia. Das 320 páginas que registram sua passagem por diferentes instituições às memórias da mãe e de educadores que conviveram com ele. Das escolas de onde fugiu aos abrigos que o acolheram.

Como ele, outros chegam às calçadas empurrados por um misto de pobreza, negligência familiar, defeitos na rede de proteção, indiferença da sociedade, esmola, drogas.

Nesta reportagem, você vai entender por que não conseguem sair.

Os nomes do menino e da família foram trocados para preservar as identidades, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente. Para consultar os documentos que registram esta história, Zero Hora obteve autorização da 1ª Vara da Infância e da Juventude da Capital.


A mãe aprendeu a ler as sombras entre as esquinas. Caminha olhando para os lados, arqueando as sobrancelhas desenhadas com uma pinça. Em cada vulto, procura o filho caçula, de 11 anos, a quem não vê há um ano e 18 dias. Segue em direção à Vila dos Papeleiros, na principal entrada da Capital, forçando a perna esquerda que a paralisia infantil encolheu. Soube por uma vizinha que o menino está nas redondezas, onde há um ponto de venda de crack. Na tarde quente deste 27 de março de 2009, carrega a tensão de uma jornada decisiva.

Sua última busca por Felipe.

Cansada da luta para resgatá-lo, Maria tomou uma decisão. Vai viver ao lado da mãe e das irmãs em Torres. Antes, quer encontrar o filho. O suor escorre pelo peito enquanto ela espreme as mãos, deixando à mostra as unhas pintadas com esmalte rosa cintilante. Não é porque é pobre que não tem que se cuidar, diz.

Veja o vídeo sobre a trajetória errante de Felipe


Felipe começou a fugir de casa aos cinco anos. A mãe admite que nunca conseguiu cuidar direito dele e dos cinco filhos mais velhos. Passava os dias limpando casas, cuidando das crianças dos outros. Mas acredita que o menino teria retornado para o lar erguido com tábuas de lixo reciclado, no bairro Bom Jesus, se não ganhasse tanta esmola de gente que imagina estar fazendo uma boa ação.

Maria não quer conversar agora – está ocupada distinguindo rastros. Ao entrar na vila, fixa o olhar em um menino moreno, com uma camiseta verde grande demais. Parece com Felipe, embora tão mais magrinho desde o último abraço. Apressa o passo e o menino corre.

– Ele nunca fugiu de mim antes, não deve ser ele – raciocina.

Era. O menino corre em direção à Avenida Castelo Branco. Maria não o alcança, e pergunta a uma moradora de rua se o conhece. A resposta pesa como sentença:

– Sim, ele me chama de mãe.

Quando apareceu em busca de uma pedra de crack, Felipe havia dito à mulher que seus pais haviam morrido. Maria nem sabe o que dói mais: a fuga ou a morte inventada, a mentira ou a realidade.

– Ele sempre vem correndo e me abraça. E aí diz: desculpa, mãe, não vou mais fugir. Hoje, ele nem olhou pra trás – lamenta a mãe verdadeira.

Maria acredita que o filho vai voltar. Comprime os lábios, entrelaça os dedos numa prece sem reza. Espera na casa oferecida por uma vizinha do ponto de tráfico, onde observa desde crianças até idosos sucumbirem ao mesmo vício. Fazem fila diante da porta do traficante. Quando um jovem de boné e abrigo azul-marinho aparece para distribuir a droga, 12 deles se amontoam ao seu redor. Convertidos em zumbis, não percebem que são observados. Olhos vidrados, disputam as pedras como se fossem diamantes, correm em direções opostas para consumi-las. O vaivém é permanente. No meio da tarde, a polícia faz uma batida na vila. Vinte consumidores de crack são encostados num paredão. Outros dois fogem. A mãe espreita para ver se reconhece o seu filho entre eles. Felipe não está ali.Em galeria de fotos, veja imagens das andanças de Felipe pelas ruas da Capital

Às 19h30min desta sexta-feira, ela desiste de esperar. Deixa recados entre os moradores, que digam ao filho que ela vai embora na quarta-feira, que ele apareça em casa antes para acompanhá-la a Torres. Enxuga as lágrimas pelo caminho. Diz que precisa voltar para cuidar do neto que cria. Morar no Litoral é também uma tentativa de evitar que o pequeno de seis anos tenha o mesmo destino de Felipe e seus irmãos. Um morreu assassinado, outro está preso por roubo, um terceiro passou pela Fase. As duas irmãs também caíram nas drogas e perambularam pelas ruas.

– Outro dia com a casa vazia – suspira.

A MÃE ESPERA, EM VÃO

Nos dias seguintes, reza para que o caçula apareça enquanto acomoda as roupas em caixas de papelão para a mudança. Levará consigo o filho de 17 anos, o neto e a gatinha de estimação, que recebeu o nome de Anjinha pela pelagem toda branca. As filhas são maiores de idade, vão seguir seu próprio destino.

No dia da partida, deixa separada uma muda de roupa limpa, para o caso de encontrar Felipe pelo caminho. No trajeto da Vila Bom Jesus até a Estação Rodoviária, mantém a cabeça colada no vidro da Kombi que contratou para o frete com o dinheiro da venda da geladeira e dos poucos móveis. Maria se apega à remota esperança de que o menino apareça de repente. Sentada em um banco da Rodoviária, segura com a mão direita a cabeça, que pensa no filho ausente, enquanto vigia Anjinha, quieta em uma caixa própria para o transporte no ônibus.

– Preciso ir com ou sem ele, já parei muito tempo a minha vida – desiste.

Foge da realidade no dia da mentira, 1º de abril de 2009. Desde então, a criança não tem mais uma casa para voltar. A cidade dá à luz oficialmente mais um menino de rua.

Herdeiro de um lar em crise

O flash de uma infância feliz ficou imortalizado na fotografia: aos três anos, um Felipe de cabelos loiros encaracolados faz pose em cima de um pônei emprestado por um vizinho, na Vila Mário Quintana, na zona norte de Porto Alegre.

O sorriso eternizado no único retrato de sua infância conta pouco de sua história. A foto foi tirada logo após a separação dos pais, em 2001, uma perda nunca completamente superada pelo menino.

As fugas se tornaram rotina em seguida. Longe da vigilância da mãe, que passava o dia fazendo faxinas, dizia que saía para procurar o pai, a quem sempre idealizou como um herói.

Maria explicava ao filho que precisou mandar embora o companheiro de duas décadas porque estava cansada de apanhar. Nos bons tempos, o pai dos seis filhos trabalhava como vigilante no estádio Beira-Rio. Perdeu o emprego de 14 anos por causa do alcoolismo. A esposa não conseguia perdoá-lo. As marcas da violência lhe gritavam cada vez que olhava no espelho. De tanto levar socos do marido na boca, perdeu três dentes da frente.

– O doutor disse que vão cair todos, porque ficaram moles, matou a raiz. Dois caíram de uma tacada só, enquanto eu escovava os dentes – entristece-se Maria.

Sua sexta gravidez não foi planejada, mas nem por isso era indesejada. Com cinco filhos em idades entre seis e 19 anos, a doméstica de 37 anos sentia falta daquelas atenções que só as gestantes recebem, da emoção que o filho começa a dar para a mãe antes mesmo de ser parido. Acreditava que a chegada de um bebê poderia trazer dias melhores. Nunca tomou anticoncepcionais, confia que Deus sabe das coisas.

Os pés que anos depois iriam se perder entre as esquinas da Capital já denunciavam sua inquietude no Hospital Conceição, onde Felipe nasceu, às 18h47min de 15 de fevereiro de 1998.

A agitação do bebê que se apresentou ao mundo com 3,59 quilos e 51 centímetros fez com que seis dedos ficassem gravados na ficha do teste do pezinho. As bochechas vermelhas contrastavam com o cabelo castanho do recém-nascido, que irrompeu de parto normal após as 41 semanas e um dia em que sacolejou na barriga de Maria, enquanto a mãe limpava casas de família.

Sem poder parar de trabalhar, deixava Felipe sob os cuidados de uma sobrinha e das filhas, de 11 e 14 anos. Combinava com elas para que levassem o bebê até o seu serviço, para que pudesse amamentar. Agradecia a Deus por nunca ter lhe faltado leite – e o filho mamaria até os quatro anos de idade.

Afastado do pai, Felipe cresceu sem poder contar com o exemplo dos irmãos. Longe da vigilância da mãe, que passava os dias batalhando o almoço do dia seguinte, os filhos mais velhos traçavam a própria geografia. Em 2000, quando o caçula tinha dois anos, a irmã de 15 anos e o irmão de 16 foram apreendidos por furto de lâmpadas. O filho de 12 tinha reclamações na escola por roubar merenda dos colegas. O mais velho cumpria pena por roubo. O consumo de loló virou rotina entre os mais velhos. Apesar das dificuldades para criar a prole, a mãe decidiu não fazer laqueadura após o sexto parto. Pensava: e se depois quisesse mais um bebê?

Na primeira tentativa de reconstrução de sua vida, em 2001 a doméstica assumiu um novo relacionamento, com um servente de pedreiro que havia estudado até o segundo ano do Ensino Médio e a conquistou com seu jeito trabalhador.

– Ele sai de casa pra trabalhar mesmo com chuva. Se precisa, cata latinha, qualquer coisa – entusiasmou-se.

Apaixonada, Maria começou a dedicar mais tempo para o novo companheiro, e em agosto do mesmo ano, engravidou pela sétima vez. Felipe reagiu mal à mudança. Sentindo falta do pai e ciúme da mãe, rejeitava aquele estranho que tentava impor sua autoridade na casa, dando ordens sobre a hora de comer, de dormir. Não queria saber de outro homem ao lado de Maria.

– Eu não quero que tu viva com a minha mãe, quero que ela fique sozinha ou com meu pai – dizia para o padrasto.

– Por que tu não volta com meu pai? – repetia para a mãe, que acabou sofrendo aborto espontâneo meses depois.

Embora Maria negasse, os filhos relataram às autoridades que o padrasto também ficava agressivo quando bebia e batia neles. Em 2 de julho, uma das filhas queixou-se de maus-tratos a técnicos da Justiça Instantânea, que acompanhavam a adolescente desde 1998, quando foi acusada de roubar roupas em uma loja.

“Disse que o padrasto, no dia anterior, colocou seu irmão D. embaixo da água fria do chuveiro e bateu-lhe com cinta, deixando-lhe com vários vergões. Depois seu irmão foi para a escola e, por medo, não retornou mais para casa, não sabendo onde ele se encontra. V., que havia se queixado, anteriormente, do padrasto que gritava muito com ele e quis lhe bater com um espeto, também saiu de casa e não sabem onde ele está. Apesar de Felipe ter apenas três anos, puxa-lhe as orelhas e coloca-o de joelhos. Costuma chamar B. de vagabunda, dizendo que ela não presta para nada. Em outra ocasião, a adolescente queixou-se que a mãe havia lhe agredido com cabo de vassoura”, registra o documento.

Passe livre para sair de casa

Diante do acirramento do conflito familiar, Felipe começou a sair de casa com mais frequência. Com a cumplicidade dos cobradores de ônibus, que permitiam que passasse por baixo da catraca, ganhou o passaporte para sair da vila rumo ao Centro. Em suas viagens, descobriu uma nova cidade. Ruas calçadas com prédios grandes e bonitos como nunca tinha visto, o pôr do sol do Guaíba, praças cobertas de árvores e brinquedos que não havia nas vilas onde morou.

A busca pelo pai passou a ser pretexto para caminhar guiado pelos próprios prazeres. Descobriu o Parque da Redenção, encontrou meninos e meninas como ele, vagando sem destino. Um mundo divertido, onde não precisava seguir regras, e onde as pessoas lhe davam comida e dinheiro assim que estendia a mão.

De tanto procurar pelo pai, um dia Felipe acabou encontrando. Aos oito anos, em uma de suas andanças pelo centro da Capital, descobriu que seu herói também perambulava sem destino, catando latinhas. Animado pelo reencontro, voltou para casa e disse à mãe que iria viver com ele nos arredores da Vila dos Papeleiros.

A doméstica ficou triste, sabia que o marido não tinha condições de cuidar do menino, mas se achava incapaz de impor limites. Sem sequer saber o endereço, Maria informou a mudança do menino para o Conselho Tutelar, que avisou o Ministério Público, em 7 de abril de 2006.

Apesar do entusiasmo de Felipe, a reaproximação com o pai se revelou uma ilusão. O Conselho Tutelar nunca chegou a encontrar o papeleiro, e Felipe voltou a se dividir entre a rua e a casa na Bom Jesus, com a mãe e os irmãos.

Meses depois, o pai apareceu para procurá-lo por lá.

– Mãe, o pai tá aí – avisou Felipe.

– Vai lá falar com ele – respondeu a mãe.

O filho foi até a porta e voltou:

– Mas ele tá bêbado – desiludiu-se.

– Pois é, meu filho, era isso que eu te falava – consolou Maria.

Desde então, o pai nunca mais foi visto.

Esmola, o sustento na rua

Antes mesmo de chegar à idade de entrar na escola, o menino já palmilhava a cidade. Tinha cinco anos na primeira vez em que foi recolhido no centro de Porto Alegre pela Brigada Militar, por volta das 20h do dia 24 de junho de 2003. Levado ao Plantão Centralizado do Conselho Tutelar, disse que morava em Alvorada. Como na época não havia integração informatizada entre os sistemas de atendimento na Região Metropolitana, a mentira foi descoberta apenas no dia seguinte. Desde então, a distância de casa só aumentou.

Nas ruas, Felipe descobre ser capaz de conquistar sozinho o que a mãe não pode lhe dar. Nem precisa dizer nada: basta estender os braços finos e o dinheiro aparece na sua mão. Numa de suas primeiras noites na rua, aos seis anos, o menino de lábios carnudos e cabelo castanho raspado arrecada R$ 100 pedindo esmola na rodoviária. Volta para casa de táxi, com duas sacolas de rancho. Compra bolachas recheadas, refrigerante, chocolate – sonhos de consumo que os R$ 80 mensais que a mãe ganhava com faxinas nunca puderam realizar.

– O que foi, meu filho? Tu tá passando necessidade? Tu não tem comida em casa? – repreende-lhe Maria.

Felipe desconversa, promete que não vai mais fugir, parece tão feliz que a mãe não consegue castigá-lo. Nos dias seguintes, fala que vai jogar bola com os amigos e desaparece novamente. Preocupada, Maria começa a segui-lo, recolhê-lo das calçadas do Mercado Público, trancar a porta de casa e esconder a chave embaixo do travesseiro. Felipe sempre descobre os esconderijos, inventa novas desculpas para sair. Reaparece com sorriso aberto e dinheiro no bolso.

– Só tem uma razão para as crianças estarem nas sinaleiras: é porque ali ganham dinheiro. A esmola é o que fixa as crianças na rua – adverte o desembargador Breno Beutler Júnior, que atuou durante 18 anos na 1ª Vara da Infância e da Juventude da Capital, inclusive no caso de Felipe.

Sem que a família consiga deter a trajetória itinerante, a matrícula do menino na pré-escola fica só no papel. A sequência de faltas está registrada no caderno de chamada de capa verde do Jardim B, da professora Neli. Das 50 aulas do primeiro bimestre de 2004, o menino de seis anos esteve em apenas quatro. Como até então nessa faixa etária o ensino não era obrigatório, nenhuma providência foi tomada.

No ano seguinte, a mãe volta ao Conselho Tutelar e pede ajuda para matricular Felipe na primeira série. Sob o número 3061, a vaga é assegurada em uma escola estadual perto de casa, em ficha escolar preenchida com caneta preta, assinada por Maria. A esperança dura pouco. Nos primeiros dias vai à aula, mas, na hora do recreio, pula o muro de 1m50cm, pega o ônibus e volta para o Centro.

Felipe tem 179 faltas consecutivas ao longo do ano, mas só em 20 de outubro de 2005 – no final do ano letivo – a mãe recebe uma advertência do Conselho Tutelar. Maria argumenta que não consegue controlar o filho de sete anos porque trabalha fora, não tem como vigiá-lo. Ainda assim, a cobrança tardia obtém algum resultado. O menino começa a frequentar as aulas em 11 de novembro, totalizando 23 presenças ao longo do ano. Insuficiente para aprender mais do que as letras do seu nome.

Em relatório enviado ao Conselho Tutelar em 27 de dezembro, a então diretora da escola, Lucia Araujo, manifesta preocupação com a trajetória de Felipe.

“No pouco comparecimento, foi evidenciado [comportamento] agressivo com colegas, brigas, mentiras, fantasias de situações vividas, conivência da mãe com atitudes inadequadas do filho, pouco acompanhamento escolar da família, fuga da escola, inquieto para a realização de atividades na aula, além de história familiar de drogadito e de morte do irmão mais velho. Sugerimos apoio à família, na área assistencial e de saúde, para que haja progresso escolar.”

Com o dinheiro doado por anônimos, Felipe começa a ir cada vez mais longe. Três semanas antes de completar oito anos, é encontrado pelo Conselho Tutelar de Novo Hamburgo em situação de mendicância, no centro. Quando lhe perguntam quem é, responde que sua casa havia queimado num incêndio e toda sua família havia morrido. Mas durante a conversa confessa onde realmente mora. O conselheiro Valderi Luiz Barbosa leva então o menino de volta a Porto Alegre. Antes que sua mentira seja descoberta, Felipe foge da sala de espera do conselho da Bom Jesus, aproveitando que os conselheiros estão atarefados com outros casos. Volta sozinho para casa. Dois dias depois, a rotina se repete: a mãe é notificada, obrigada a acompanhar a frequência escolar do filho. Desta vez, o menino é encaminhado para atendimento em serviço socioeducativo conveniado com a prefeitura na Vila Bom Jesus. Chega a comparecer algumas vezes, mas é identificado pela educadora Marta Helena Cardoso como um aluno turista entre as 160 crianças que frequentam a instituição: visita de vez em quando, joga futebol, mas não tem concentração na escrita nem se mostra interessado na hora do conto.

Em vez de ouvir historinhas de contos de fadas no serviço socioeducativo, elege como professores outros moradores de rua que catam papelão nas imediações da praça Garibaldi, na Cidade Baixa, e no Centro. Em 7 de março de 2006, é recolhido pelo plantão do Conselho no Centro, vagando às 2h30min. Ao ser questionado sobre sua família, diz que a mãe é falecida. Sem conferir a informação nem a identidade de Felipe, o plantão conduz o menino ao Acolhimento Noturno, destinado a moradores de rua adultos. Assim que o sol nasce, Felipe volta a mendigar. Quase um mês depois, em 4 de abril, é localizado e levado por educadores do serviço de abordagens da prefeitura para o Lar Dom Bosco, um abrigo diurno que oferece atividades recreativas a crianças e adolescentes.

Neste momento, o menino de oito anos já vaga pelas ruas há três.

Bolsa para ajudar a família

Para auxiliar na reestruturação, a família é incluída no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e no Bolsa-Família em abril de 2006, recebendo um total de R$ 200 mensais. Embora um dos pré-requisitos da bolsa seja a permanência da criança na escola, Felipe nunca voltou para a sala de aula. Sem integração com programas de geração de renda e preparação para o mercado de trabalho, a bolsa não altera em nada a estrutura familiar.

Três meses depois de ser incluído no Peti, que atende 10.313 crianças e adolescentes gaúchos atualmente, o menino de oito anos é encontrado sozinho em Guaíba. Recolhido pela Brigada Militar, é levado ao Conselho Tutelar. Como diz não ter família, permanece três dias abrigado no município até descobrirem sua verdadeira identidade. Ao ser avisada, a conselheira Lucia Kümmel, do conselho da Bom Jesus, pega a Kombi do órgão e vai, junto com a mãe, resgatá-lo.

O caçula abraça e beija Maria ao reencontrá-la, promete novamente que nunca mais vai fugir. Para manter o filho por mais tempo na vila, a doméstica junta economias e compra de um vizinho uma bicicleta usada, que ele tanto sonhava em ter. Sobre as duas rodas, o menino vai embora outra vez.

Sem notícias do filho há mais de um mês, Maria volta a recorrer ao Conselho Tutelar. Localizado no Lar Dom Bosco, Felipe diz que prefere ficar ali, “pois o professor de capoeira é bem legal”, mas que gostaria de visitar a mãe de vez em quando, “porque gosta dela”. Ao fim das suas declarações, anotadas a caneta por uma educadora do lar, está uma constatação: o menino “não sabe assinar”.

Até hoje, aos 14 anos, Felipe não foi alfabetizado.

Entre a casa e as calçadas

Quanto mais o tempo passa, mais a rua dissolve os vínculos familiares de Felipe. Aos 11 anos, está há um ano morando pelas calçadas quando reaparece sozinho na rua de chão batido onde foi criado, na Vila Bom Jesus. Ao chegar, em 15 de abril de 2009, encontra aberto o portão de tábuas irregulares da casa onde morava. Por instantes, Felipe pensa que a mãe ainda o espera. Ao espiar entre as frestas, vê que outra família ocupa o cenário de sua infância. A mãe havia se mudado para Torres 15 dias antes.

Já tinham lhe contado da partida. Ao ver por si próprio, reage com indiferença.

– Acho melhor ficar na rua porque meu padrasto bate em mim – diz o menino, com o olhar sombreado pelo boné verde militar e o corpo infantil encoberto pela camiseta cinza tamanho adulto, com mangas batendo no cotovelo.

Confessa ter saudade da mãe, mas não desfaz o sorriso.

– Diz pra ela que eu amo ela muito, pra ela não sentir minha falta.

Embora apresente o olhar um tanto perdido, a fala enrolada, aos olhos dos vizinhos ainda parece o mesmo guri que gostava de jogar futebol quando pequeno. As vizinhas espiam pelos portões para confirmar se é ele mesmo. Em minutos, uma dezena de crianças forma um círculo ao seu redor. A todos os que se aproximam, Felipe saúda com um abraço, um sorriso.

– Oi, eu voltei – repete, como quem regressa de uma viagem.

Entre os amigos que o cercam, está um vizinho da mesma idade, que durante dois anos foi engraxate no centro da cidade e, com ajuda do Conselho Tutelar, regressou ao lar. No caso dele, o vínculo com a escola foi decisivo. Mesmo quando ia para o Centro, nunca parou de frequentar a sala de aula, e àquela altura, está na terceira série. Ali também estão dois meninos, de nove e 10 anos, que já venderam amendoim e bergamota nas sinaleiras da Ipiranga, perto do entroncamento da PUCRS.

– A gente só parou de ir vender na sinaleira porque o cara deixou de nos dar serviço – contou um deles.

A volta do ex-vizinho é transitória. Pouco antes das 17h, Felipe decide partir. Atravessa a rua principal da Bom Jesus rumo à parada de ônibus, deixando pelo asfalto o rastro dos papéis das balas que ganhou dos amigos. Entra na linha 671 da Unibus, passando por baixo da roleta. O destino é a Vila dos Papeleiros, onde há um ponto de crack.

– O certo seria não deixar esses guris passarem, mas sabe como é, a gente tem medo. Uma vez, um cobrador não deixou e depois o pai do guri, que era traficante, deu três tiros na cabeça dele – justifica o cobrador, contando que em linhas como a Educandário chegam a passar 80 crianças por baixo da catraca a cada dia.

Sentado no fundo do ônibus, Felipe canta versos de glória, aleluia. Músicas que lembram a religiosidade de sua infância, no tempo em que ia com a mãe à igreja e sonhava em ser pastor. Diz que não sabe rezar, mas acredita em Deus.

– Acho que ele pode me tirar dessas drogas – crê.

Não gosta de falar sobre o crack, nem sobre onde dorme. Corta a conversa dizendo que quer parar com tudo. Arrisca planos para o futuro.

– Se alguém me oferecer um serviço, vou trabalhar e vou parar de usar. Vou comprar uma casa e uma televisão e vou comprar minhas roupas, meu guarda-roupa e um carro ou uma moto – enumera, num sorriso tímido.

À medida que o Centro se aproxima, assume outra personalidade. Não quer mais conversar. Desce do ônibus correndo, na Avenida Cristóvão Colombo. Desvia dos pedestres com seu tênis Mizuno branco encardido, que garante ter comprado por R$ 1. Apanha um pedaço de arame da calçada, começa a apontá-lo a quem cruza seu caminho.

– Passa a bolsa, passa a bolsa – grita para uma mulher, sem deixar de correr, num movimento que faz balançar os pingentes em formato de estrelinha da corrente prateada que carrega no pescoço.

No caminho rumo ao ponto de crack, atravessa a rua cortando a frente de um ônibus. Passa por uma banca de churrasquinho montado sob as paradas dos coletivos e ganha um espetinho.

– Eu sempre dou força pra esse menino – acredita José Bento, o dono da banca, um dos que ajudam a mantê-lo na rua.

Sai mastigando. Pensa em parar para pedir esmola diante de um supermercado, mas segue adiante. Recolhe uma pedra no chão, faz de conta que vai atirar contra um outro morador de rua que passa pela calçada.

– Que que é, rapaz? – provoca, agressivo.

Ao chegar à Vila dos Papeleiros, cumprimenta conhecidos, senta no pátio de uma casa onde costuma vender latinhas que arrecada na rua para comprar crack. Puxa um cigarro amassado, um isqueiro do bolso e começa a fumar. Ri de cenas do desenho animado Pica-Pau que passam na televisão da vizinha. Está ansioso, quer dinheiro. Nesta tarde, não pediu esmola, ainda não pode comprar a pedra. Minutos depois, se despede com um abraço. Diz que está com sono e vai dormir. Não quer ser acompanhado. Ao avistar um isqueiro da grife Zippo nas mãos do fotógrafo, Felipe pede para ver e sai correndo levando o objeto. Desaparece outra vez pelas esquinas, na escuridão das 20h. Já tem uma moeda de troca para as drogas.

A rotina é fugir de abrigos

Será mais uma noite vagando pelas ruas, entorpecido. Uma rotina que nem a Justiça conseguiu interromper. Um ano antes, Felipe havia sido abrigado por determinação judicial na Casa de Acolhimento da prefeitura. Como a mãe não conseguia cuidar do filho, a Promotoria da Infância entrou com uma ação de destituição do poder familiar, em 2 de abril de 2008. A guarda foi concedida provisoriamente ao abrigo municipal. Mas a instituição se revelou incapaz de segurá-lo. De 10 de novembro até 15 de março de 2009, Felipe fugiu três vezes. Na primeira, aproveitou um passeio na pracinha e escapou, enquanto o educador dava atenção às outras crianças.

– Que abrigo é esse que criança foge? – indignou-se a mãe.

A coordenação do abrigo admite que as fugas são rotina. Diz que ali é um espaço de moradia, não de detenção, por isso as crianças não são trancadas. Mas reconhece falta de estrutura. Na época, em um espaço para 30 crianças, havia 64 – e apenas seis educadores sociais em cada turno.

– Quando se olha para o lado, um já pulou o muro – explicou o educador social Gilberto Lopes Leal, em 2009.

Apesar das falhas da rede, o psicólogo Lucas Neiva-Silva, pesquisador do Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua da UFRGS, discorda da ideia de fracasso do sistema.

– Na história de várias outras crianças o sistema tem sido efetivo, ajudando-as a sair das ruas. Talvez, sem essas intervenções, o menino estivesse hoje em situação ainda mais vulnerável – pondera.

Em uma das vezes em que voltou ao abrigo, em 5 de março de 2009, depois de quase um mês na rua, Felipe não queria falar com ninguém. Dormiu por dois dias seguidos. Quando despertou, começou a desenhar os automóveis que aprendeu a apreciar nas ruas. Em formas coloridas, reproduzia com fidelidade os detalhes de cada peça, do motor aos equipamentos de som. Diante dos progressos, os educadores conseguiram animá-lo a voltar à escola. Felipe ficou entusiasmado ao contemplar a mochila. Pediu pra ver os cadernos, o lápis, o estojo. As aulas começariam no dia 16, segunda-feira, na Escola Aberta da Vila Cruzeiro. No domingo da véspera, fugiu outra vez. Lá fora, algo mais poderoso o atraía: o crack.

As 320 páginas de documentos compilados desde 1998 sobre Felipe contam sua peregrinação pelas ruas e comprovam que passou imune pelos serviços de proteção em que foi incluído:

- Foram 105 encaminhamentos do Conselho Tutelar

- A família foi inserida em 5 programas sociais: Bolsa-Escola, Bolsa-Família, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Núcleo de Apoio Sociofamiliar da prefeitura de Porto Alegre e Ação Rua

- Foram 9 encaminhamentos da Promotoria da Infância e da Juventude e 3 do Juizado da Infância e da Juventude

- Felipe foi internado 7 vezes para tratar sua dependência química

- O menino passou por 3 abrigos e foi matriculado em 4 escolas. Continua analfabeto


Leia mais:

Parte 2: No meio do caminho tinha uma pedra

Parte 3: Longe da família, perto do crime

sábado, 15 de junho de 2013

Quem sente agora está ausente




"Quem chora agora está por fora
Quem ama agora está na cama doente
Só corre nunca chega na frente
Se chega é pra dizer vou embora
Arnaldo Antunes





Quem trabalha em educação sabe que é cada vez maior o número de atestados médicos apresentados pelos professores da rede pública em todo o país.
No Distrito Federal foram mais de 10 mil desde o início do ano, isto representa 30% do total destes professores. No Rio de Janeiro já foram apresentados mais de 15 mil atestados desde o começo do ano letivo, e os motivos para o afastamento no geral são os mesmo: na maioria doenças musculares e problemas psicológicos. 

É alta incidência de professores doentes e afastados. É preciso com urgência a sociedade debater e refletir sobre o que está acontecendo nas Escolas públicas das grandes cidades e elaborar um plano preventivo de saúde para os profissionais de educação que sem dúvida estão ficando doentes em nosso país.

Os professores por diversas razões ainda pouco falam deste assunto e nem mesmo colocam nas suas pautas de reivindicações pontos relativos a prevenção da saúde e a Síndrome de Burnout.


A Síndrome de "Burnout" em Professores 

Fonte: wikipédia em 13/06/2013

A síndrome de burnout de professores é conhecida como uma exaustão física e emocional que começa com um sentimento de desconforto e pouco a pouco aumenta à medida que a vontade de lecionar gradualmente diminui. Sintomaticamente, a burnout geralmente se reconhece pela ausência de alguns fatores motivacionais: energia, alegria, entusiasmo, satisfação, interesse, vontade, sonhos para a vida, idéias, concentração, autoconfiança e humor.


Um estudo feito entre professores que decidiram não retomar os postos nas salas de aula no início do ano escolar na Virgínia, Estados Unidos, revelou que entre as grandes causas de estresse estava a falta de recursos, a falta de tempo, reuniões em excesso, número muito grande de alunos por sala de aula, falta de assistência, falta de apoio e pais hostis. 
Em uma outra pesquisa, 244 professores de alunos com comportamento irregular ou indisciplinado foram instanciados a determinar como o estresse no trabalho afetava as suas vidas. 

Estas são, em ordem decrescente, as causas de estresses nesses professores:
Políticas inadequadas da escola para casos de indisciplina;
Atitude e comportamento dos administradores;
Avaliação dos administradores e supervisores;
Atitude e comportamento de outros professores e profissionais;
Carga de trabalho excessiva;
Oportunidades de carreira pouco interessantes;
Baixo status da profissão de professor;
Falta de reconhecimento por uma boa aula ou por estar ensinando bem;
Alunos barulhentos;
Lidar com os pais.


Os efeitos do estresse são identificados, na pesquisa, como:
Sentimento de exaustão;
Sentimento de frustração;
Sentimento de incapacidade;
Carregar o estresse para casa;
Sentir-se culpado por não fazer o bastante;
Irritabilidade.


As estratégias utilizadas pelos professores, segundo a pesquisa, para lidar com o estresse são:
Realizar atividades de relaxamento;
Organizar o tempo e decidir quais são as prioridades;
Manter uma dieta equilibrada ou balanceada e fazer exercícios;
Discutir os problemas com colegas de profissão;
Tirar o dia de folga;
Procurar ajuda profissional na medicina convencional ou terapias alternativas.


Quando perguntados sobre o que poderia ser feito para ajudar a diminuir o estresse, as estratégias mais mencionadas foram:
Dar tempo aos professores para que eles colaborem ou conversem;
Prover os professores com cursos e workshops;
Fazer mais elogios aos professores, reforçar suas práticas e respeitar seu trabalho;
Dar mais assistência;
Prover os professores com mais oportunidades para saber mais sobre alunos com comportamentos irregulares e também sobre as opções de programa para o curso;
Envolver os professores nas tomadas de decisão da escola e melhorar a comunicação com a escola.


Como se pode ver, o burnout de professores relaciona-se estreitamente com as condições desmotivadoras no trabalho, o que afeta, na maioria dos casos, o desempenho do profissional. A ausência de fatores motivacionais acarreta o estresse profissional, fazendo com que o profissional largue seu emprego, ou, quando nele se mantém, trabalhe sem muito apego ou esmero.


Sugestão de cartilha sobre a saúde do professor (Identificação, tratamento e prevenção):


http://www.saudedoprofessor.com.br/Burnout/Arquivos/cartilha.pdf







Meu coração 


Arnaldo Antunes


Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender
Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender

Quem sente agora está ausente
Quem chora agora está por fora
Quem ama agora está na cama doente
Só corre nunca chega na frente
Se chega é pra dizer vou embora
Sorriso não me deixa contente

E todas as pessoas que falam pra me consolar
Parecem um bocado de bocas se abrindo e fechando
Sem ninguém pra dublar
Eu já disse adeus antes mesmo de alguém me chamar
Não sirvo pra quem dá conselho
Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar


Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender
Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender

Quem sente agora está ausente
Quem chora agora está por fora
Quem ama agora está na cama doente
Só corre nunca chega na frente
Se chega é pra dizer vou embora
Sorriso não me deixa contente

E todas as pessoas que falam pra me consolar
Parecem um bocado de bocas se abrindo e fechando
Sem ninguém pra dublar
Eu já disse adeus antes mesmo de alguém me chamar
Não sirvo pra quem dá conselho
Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar


Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender
Meu coração bate sem saber

terça-feira, 11 de junho de 2013

Segundo Polo aeroespacial do País poderá ser no RS



O Governo do Rio Grande do Sul, estrategicamente vislumbra a possibilidade de fomentar a pesquisa e a tecnologia em empresas nacionais dos setores aeroespacial, tornando o Estado fornecedor de insumos técnicos para a construção de satélites. 



Sabemos que em janeiro de 2015 o Brasil lançará o seu primeiro satélite, para comunicação e defesa, de tecnologia estrangeira.


Segundo Polo aeroespacial do País poderá ser no Rio Grande do Sul.



Retirado do site do Jornal VS em 07/06/2013:


http://www.jornalvs.com.br/estado/456835/estado-cria-comissao-para-avancar-no-polo-aeroespacial.html


Estado cria comissão para avançar no polo aeroespacia
l


Palácio Piratini fará seminário técnico sobre o tema em até 45 dias

Porto Alegre - As bases para criação no Rio Grande do Sul do segundo polo aeroespacial do País começam a se tornar mais sólidas. Hoje, em reunião no Palácio Piratini, o governador Tarso Genro recebeu representações do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Agência Espacial Brasileira (AEB), Telebrás, empresas privadas e do setor acadêmico, onde formalizou o interesse em gestar a iniciativa, tendo como referência a vontade política do Palácio Piratini e a malha tecnológica e industrial gaúcha. Nas duas horas de encontro, que também selou a primeira reunião de comissão especial para execução do programa de criação do polo, conforme protocolo de intenções assinado em Israel em maio deste ano, Tarso ouviu sugestões e recomendações e teve uma ideia do cenário proposto pelo governo federal para os próximos anos no setor, que prevê investimentos de 9 bilhões de reais na aquisição de 16 satélites, 15 deles já com aporte de tecnologia nacional.

“Está feita a amarração institucional e agora nos cabe trabalhar para avançar na proposição do Polo”, enfatizou o governador. Participando da reunião, o presidente da Telecomunicações Brasileiras (Telebras), Caio Bonilha, foi enfático em elogiar a intenção do Estado em propor a iniciativa. “A possibilidade desse polo é real e vemos com muito bons olhos à vontade politica e a expertise gaúcha”, pontuou ele. Já o secretário de Ciência e Tecnologia, Cleber Prodanov, exaltou o momento como singular. "Com esta primeira reunião da Comissão Especial instaurarmos uma oportunidade estratégica para o Rio Grande do Sul à longo prazo", destacou.

Uso da tecnologia dependerá das empresas


Conforme o presidente da Telebras, Caio Bonilha, os tipos de componentes que a indústria da tecnologia gaúcha poderá fornecer aos satélites brasileiros dependerá exclusivamente do material ofertado pelas empresas. “Precisamos saber o que elas têm e a partir desse conhecimento avaliar as tecnologias”, assinalou. Sem revelar o quanto de tecnologia nacional será alocada nos equipamentos, destacou que até janeiro de 2015 o Brasil lança o seu primeiro satélite, para comunicação e defesa. Adquirido ao custo de 16 bilhões de reais, terá 100% de tecnologia estrangeira. Para 2017, data prevista para o lançamento do segundo, tecnologia nacional já estará sendo empregada, tornando essencial que a corrida gaúcha pela implantação do polo aeroespacial seja antecipada e definida no menor tempo possível.

Investimentos milionários

Publicado no último dia 20 de maio pelo governo federal, o edital do Plano Inova Aerodefesa fomenta a inovação tecnológica, pesquisa e desenvolvimento em empresas nacionais dos setores aeroespacial e aeronáutico; de defesa; e de segurança pública, com o aporte de 2,9 bilhões de reais. O montante se soma ao investimento de R$ 9 bilhões a ser feito nos próximos dez anos pela MCT e AEB na aquisição 16 satélites. Somente em 2012, o Programa Nacional de Atividades Espaciais (Pnae) investiu R$ 554,5 milhões no setor. Neste ano, a previsão é de 1 bilhão de reais. Para buscar uma parte dessa fatia gorda em um mercado diferenciado, o Rio Grande do Sul quer ser um fornecedor de insumos e técnicos para a construção dos satélites - que precisam ter, obrigatoriamente, uma parte oriunda de empresas nacionais. Hoje, o país já possui um polo, em São José dos Campos (SP), e uma política estratégica na área, através do programa espacial brasileiro, com atividades desde a década de 60. Em 1994, foi criada a Agência Espacial Brasileira, que coordena todas as atividades do setor no Brasil.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Violência, racismo e democracia

Mais um texto que li hoje e preciso guardar, pelas excelentes contribuições e reflexões sobre o tema.


Considero a professora Marilena Chauí uma das grande pensadoras do nosso país. Ao pensar na construção do Brasil como uma nação, procuro olhar  os referências teóricos desta filósofa, pois os seus conceitos e análises contribuem para a reconstrução de um país mais justo e humano.
No texto abaixo, Chauí trabalha a questão da violência, do racismo e da democracia.
Primeiramente fala da ética, racismo e violência, a segunda parte é sobre o mito da não violência brasileira, a terceira sobre o que seria uma sociedade democrática, a quarta as modificações da estrutura social do Brasil e a última parte são propostas.



Representação política e enfrentamento ao racismo: Prof. Marilena Chauí




Leia a íntegra da palestra da Prof. Marilena Chauí no Seminário Temático "Representação Política e Enfrentamento ao Racismo", realizado em Salvador (BA), em 19 de abril, no contexto das preparações para a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial - a III CONAPIR


Salvador foi a primeira capital fora de Brasília a sediar os Seminários Temáticos que integraram a programação comemorativa de dez anos de criação da SEPPIR e etapa preparatória para a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial – III CONAPIR, que acontece de 5 a 7 de novembro, em Brasília, com o tema Democracia e Desenvolvimento Sem Racismo: por um Brasil Afirmativo.

Marilena Chauí, professora doutora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), foi palestrante no evento sobre o tema Representação Política e Enfrentamento ao Racismo.

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(...)

Ética, violência e racismo

Em uma perspectiva geral, nós podemos dizer que a ética define a figura do agente ético e das suas ações e o conjunto de noções ou de valores que balizam o campo de uma ação para que ela seja considerada ética. O agente ético é definido como um sujeito ético, isto é, como um ser racional, consciente, que sabe o que faz. Como um ser livre, que decide e escolhe o que faz, e como um ser responsável que responde por aquilo que faz.

A ação ética, por sua vez, é balizada pelas ideias de bom ou mal, justo ou injusto, virtude e vício, isto é, por valores cujo conteúdo pode variar de uma sociedade para outra ou na história de uma mesma sociedade, mas que propõe sempre uma diferença intrínseca entre condutas segundo o Bem, a Justiça e a Virtude. Assim, uma ação só será ética se for consciente, livre e responsável. Só será virtuosa se for realizada em conformidade com o bom e o justo. E a ação ética só é virtuosa se for livre, e só será livre se for autônoma, isto é, se resultar de uma decisão interior ao próprio agente e não vier da obediência a uma ordem, a um comando, ou a uma pressão externos. Enfim, a ação só ética se realizar a natureza racional, livre e responsável do agente, e se o agente respeitar a racionalidade, a liberdade e a responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a subjetividade ética é sempre uma intersubjetividade. A ética não é um estoque de condutas, e sim uma praxis que só existe pela ação dos sujeitos individuais e sociais e na ação deles, definidos por formas de sociabilidade que são instituídas pela própria ação humana em condições históricas materiais determinadas.

A ética, portanto, como nós acabamos de apresentá-la, se opõe evidentemente à violência. Violência é uma palavra do latim e que significa, primeiro: tudo o que age usando a força para ir contra a natureza de alguém, violência significa desnaturar. Segundo, todo ato de força contra a espontaneidade, a vontade e a liberdade de alguém. Violência significa coagir, constranger, torturar, brutalizar. Em terceiro, todo ato de violação da natureza de alguém ou de alguma coisa valorizada positivamente por uma sociedade. Violência significa violar. Quarto, todo ato de transgressão contra aquelas coisas ou ações que alguém ou alguma sociedade define como justas e como um direito. Quinto, violência é um ato de brutalidade, sevícia, abuso físico e psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e relações sociais definidas pela opressão, intimidação, medo e terror. A violência se opõe à ética, porque trata seres racionais e sensíveis, dotados de linguagens e de liberdade, como se fossem coisas, isto é, irracionais, insensíveis, mudos, inertes, passivos.

Na medida em que a ética é inseparável da figura do sujeito racional, voluntário, livre e responsável, tratá-lo como se fosse desprovido de razão, de vontade, de liberdade e de responsabilidade é tratá-lo como não humano, portanto tratá-lo violando sua natureza, fazendo-lhe violência nos cinco sentidos que demos a essa palavra. É sob esse aspecto, entre outros evidentemente, que o racismo é violência fundada na naturalização das diferenças e na legitimação da exclusão e do extermínio dos diferentes, postos como inferiores. O racismo é uma crença fundada em uma hierarquia entre raças. É uma doutrina baseada no direito de uma raça, tida como pura e superior, de dominar as demais, e ele é um sistema político. Então ele é uma crença, uma doutrina, e ele é um sistema político fundado na extrema hostilidade contra os que são postos como inferiores levando a leis de discriminação, leis de separação ou apartamento total, o apartheid, e de legitimação e destruição física dessas pessoas, isto é, o genocídio.

Para entendermos o modo de funcionamento do racismo precisamos recordar alguns dos sentidos da palavra representação. Essa palavra, que significa estar no lugar de um outro, possui três sentidos principais. O primeiro, que se encontra na própria origem do seu uso, é o sentido jurídico, isto é, desde Roma, é o advogado que se apresenta em nome de um acusado e fala em seu nome. O segundo sentido é teatral, referindo-se ao ator que se apresenta no lugar da personagem, fala por ela e como ela. O terceiro sentido é derivado dos dois primeiros, isto é, é o sentido político, refere-se àquele que é escolhido para representar publicamente a vontade, os interesses e os direitos de um outro do qual recebeu o mandato para falar no seu nome. O núcleo do lugar da representação é, portanto, estar no lugar de um outro e falar em nome desse outro.

Ora, o pensamento crítico moderno mostra o que acontece com a ideia da representação nas sociedades fundadas na divisão social das classes. Ela serve para que a classe dominante de uma sociedade ofereça uma imagem dos dominados por meio da qual ela o define como o seu outro e o constrói como naturalmente inferior. Dessa construção resultam dois efeitos políticos. No primeiro, o outro é definido racialmente como inferior, posto desprovido de pensamento, voz e vontade, precisando por isso que a classe dominante ocupe o lugar desses inferiores e fale no seu nome, ou seja, a representação é usada para legitimar a exclusão racial no espaço público. Quero frisar porque estamos lutando pela representação, é preciso lembrar que a classe dominante manipula a noção de representação para produzir a exclusão. Em segundo lugar, a classe dominante considera este que é inferior como um perigo, isso por isso ela legitima o seu extermínio. Então nós precisamos lidar com todas as contradições da representação, porque a noção de representação em uma sociedade racista e dividida em classes legitima o racismo, a opressão, a exclusão, e o extermínio. Nós temos que desconstruir a noção dominante de representação e criar uma outra, senão não faz sentido nós irmos para o espaço público com a mesma ideia de representação, que é aquela que nos sufoca.

No caso do Brasil esse dois efeitos se encontram presentes, mas eles são sistematicamente ocultados por um mito, o mito da não violência brasileira, que permite afirmar que não há racismo no Brasil. Por isso é necessário examinar, ainda que brevemente, a representação imaginária que sustenta o mito da não violência brasileira. Passo então ao meu segundo tópico, o mito da não violência.

Mito da não violência

Por que mito? Primeiro porque um mito opera com antinomias, tensões e contradições que não podem ser resolvidas sem uma profunda transformação da sociedade no seu todo, e que por isso são transferidos de uma solução imaginária que torna suportável e justificável a realidade tal como ela é. Um mito nega e justifica a realidade negada por ele. Segundo, um mito cristaliza-se em crenças que são interiorizadas em um grau tal que não são percebidas como crenças, mas tidas não só como uma explicação da realidade, mas como a própria realidade. Um mito substitui a realidade pela representação imaginária e torna invisível a realidade existente. Terceiro, um mito resulta de ações sociais e produz como resultado outras ações sociais que o confirmam, isso é, um mito produz valores, ideias, comportamentos e práticas que o reiteram pela ação da sociedade. Um mito não é um simples pensamento, mas uma forma de ação.

A mitologia da não violência brasileira opera alguns mecanismos ideológicos que garantem a sua conservação, mesmo contra todos os dados factuais contra ela. O primeiro mecanismo é o da exclusão. Afirma-se que a nação brasileira é não violenta e, se houver violência, ela é praticada por gente que não faz parte da Nação, mesmo que tenha nascido e viva no Brasil. O mecanismo da exclusão produz a diferença entre um “nós brasileiros não violentos” e “eles não brasileiros” violentos, eles não fazem parte de nós.

O segundo é o mecanismo da distinção. Distinguisse o essencial do acidental, isto é, por essência os brasileiros não são violentos e, portanto a violência, quando ela existe, é acidental, é um acontecimento efêmero, passageiro e por isso se diz que uma epidemia de violência, um surto de violência, que está cristalizado na superfície de um tempo e de uma espaço definidos, ela é vista como superável e ela deixa intacta a nossa essência não violenta.

O terceiro mecanismo é jurídico, a violência fica circunscrita ao campo da delinquência e da criminalidade, e o crime é definido como ataque à propriedade privada, o furto, o roubo, latrocínio. Esse mecanismo jurídico permite de um lado determinar quem são os agentes violentos, em função dos mecanismos anteriores, da exclusão e da distinção, os agentes violentos são os pobres, e entre os pobres, evidentemente, os negros, e legitimar a ação da polícia contra a população pobre, e em particular contra os negros. A ação policial pode ser às vezes considerada violenta, ela recebe o nome de chacina, massacre quando de uma só vez e sem motivo o número de assassinados é elevado. No restante das vezes, porém, o assassinato policial é considerado normal e natural, uma vez que ele protege o “nós não violentos” contra o “eles violentos”.

Finalmente o último mecanismo é o da inversão do real, graças à produção de máscaras que permitem dissimular comportamentos, ideias e valores violentos como se fossem não violentos. Assim, por exemplo, o machismo é colocado como proteção à natural fragilidade feminina – proteção que inclui a ideia de que as mulheres precisam ser protegidas delas próprias, pois como todos sabem o estupro é um ato feminino de provocação e sedução. O paternalismo branco é visto como proteção para auxiliar a naturalidade e indolência dos negros, os quais, como todos sabem são incapazes e incompetentes.

O exemplo luminoso desse mecanismo de inversão tem sido a reação de uma parte da sociedade ao PROUNI, ao ENEM, às cotas. Antes de prosseguir eu quero contar para vocês um episódio. Eu tenho uma parente (todo mundo sempre tem um parente, né?) que ligou para mim há mais ou menos um mês: “Marilena, você não sabe o que aconteceu, o que está acontecendo”, eu disse, “Aparecida, o que é?”, [Ela disse] “Você não sabe, o Governo acaba de introduzir o racismo no Brasil”, e eu disse “É mesmo, Aparecida, e como foi isso?”, [Ela] “Ah, PROUNI, ENEM, cotas, vai ser a opressão dos estudantes brancos, vai ser opressão nossa, o Governo está introduzindo o racismo no Brasil”. Então esse é um típico mecanismo de exercício da violência através da inversão do real. Muitos dizem que se trata da opressão racial contra os brancos, e no momento de entrada da universidade trata-se do estímulo ao ódio contra os negros durante a sua permanência universitária, em suma, o PROUNI, o ENEM, as cota, seria, como disse a minha parenta, a criação do racismo no Brasil.

Em resumo, no Brasil a violência não é percebida ali mesmo onde ela se origina, ali mesmo onde ela se define como propriamente dita, isto é como toda prática e toda ideia reduz um sujeito à condição de coisa que viola interior e exteriormente o ser de alguém, que perpetua relações sociais de profunda desigualdade econômica, social e cultural. Mais do isso, a sociedade não percebe que as próprias explicações que ela oferece para violência são violentas, porque ela está cega ao lugar efetivo da produção da violência. Isto é, a estrutura da sociedade brasileira, que em sua violência cotidiana, reitera, alimenta e repete o mito da não violência.

Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é denominada pelo predomínio do espaço privado, portanto os interesses econômicos, sobre o espaço público, e tendo no centro a hierarquia familiar, a sociedade é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos. Nela, as relações sociais intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior que manda e um inferior que obedece (Sabe com quem está falando?). As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito, nem como sujeito de direitos, e jamais é reconhecido como subjetividade e alteridade. As relações entre os que se julgam iguais são de parentesco, de compadrio, isto é, de cumplicidade. E entre aqueles que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da cooptação, e quando a desigualdade é muito marcada assume pura e simplesmente a forma da opressão.

Assim a naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que a naturalização das diferenças étnicas, consideradas desigualdades raciais entre superiores e inferiores, desigualdades religiosas e de gênero, assim como naturalização de todas as formas visíveis e invisíveis da violência. Nós podemos resumir simplificadamente os principais traços da nossa violência social, considerando a sociedade brasileira oligárquica, autoritária, vertical, polarizada entre a carência e o privilégio e com bloqueios e resistências à instituição dos direitos civis, econômicos, sociais e culturais.

Nossa sociedade conheceu a cidadania através de uma figura inédita, o senhor (de escravos) cidadão, e concebe a cidadania como privilégio de classe, fazendo-a ser uma concessão da classe dominante às demais classes sociais, podendo ser-lhes retirada quando os dominantes assim o decidirem. Pelo mesmo motivo, no caso das camadas populares, os direitos em lugar de aparecerem conquistas dos movimentos sociais e populares organizados, são sempre apresentados como concessão ou outorga feitas pelo Estado, dependendo da vontade pessoal ou do arbítrio do governante. Em nossa sociedade, as diferenças e assimetrias sociais pessoais são imediatamente transformadas em desigualdades naturais, que permitem a legitimidade da hierarquia de mando e obediência. Na nossa sociedade as leis sempre foram armas para preservar privilégios e o melhor instrumento para repressão e a opressão, jamais definindo direitos e deveres concretos e compreensíveis para todos. Toda essa situação é claramente reconhecida pelos trabalhadores quando eles afirmam que a justiça só existe para os ricos.

O poder judiciário é claramente reconhecido como distante, secreto, representante dos privilégios das oligarquias e não dos direitos da generalidade social. Para os grandes, a lei é privilégio, para as camadas populares, repressão. A lei não figura o polo público do poder e da regulação dos conflitos, não define direitos e deveres dos cidadãos, porque em nosso país a tarefa é da lei é a conservação de privilégios e o exercício da repressão. Por esse motivo, as leis aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para serem transgredidas e não para serem transformadas. Situação violenta que é miticamente transformada em um traço positivo quando a transgressão é elogiada como o jeitinho brasileiro. Os partidos políticos tendem a ser clubes privados das oligarquias locais e regionais, sempre tomam a forma clientelística na qual a relação é de tutela e de favor, isto é, os interesses econômicos dos dominantes. A indistinção entre o público e o privado é a estrutura mesma do campo social e do campo político. É uma sociedade que por isso bloqueia a esfera pública da opinião como expressão de interesses e grupos, classes sociais diferenciadios e antagônicas. Esse bloqueio não é um vazio ou uma ausência, mas é um conjunto de ações determinadas que se traduzem em uma maneira determinada de lidar com a esfera da opinião.

Os meios de comunicação monopolizam a informação e o consenso é confundido com a unanimidade, de sorte que a discordância é posta como ignorância, atraso e perigo. É uma sociedade que não pode tolerar a manifestação explícita de contradições, justamente porque leva as desigualdades sociais ao limite e não pode aceitá-las de volta sequer através da chamada rotinização dos conflitos de interesses (que é como opera na democracia liberal). Pelo contrário, a classe dominante exorciza o seu horror às contradições produzindo uma ideologia da indivisão nacional e da união nacional a qualquer preço, por isso ela recusa perceber e trabalhar os conflitos e as contradições sociais, econômicas e políticas enquanto tais, uma vez que conflitos e contradições negam a imagem mítica da boa sociedade indivisa, una, pacífica, ordeira e generosa, que não conhece violência.

Contradições e conflitos não são ignorados, eles recebem uma significação precisa, eles são considerados sinônimos de perigo, crise, desordem e a eles se oferece uma única resposta: a repressão policial e militar. A sociedade brasileira está polarizada entre a carência absoluta das camadas populares e o privilegio absoluto das camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição e agora a consolidação da democracia.

A democracia e criação de direitos

Uma sociedade – e não apenas uma forma de Governo de Estado – é democrática quando institui algo profundo que é condição do próprio regime político. Ou seja, quando institui direitos. Essa instituição de direitos é uma criação social, de tal maneira que a atividade democrática realiza-se socialmente como luta social, e politicamente como um contrapoder social que determina, dirige, controla, limita, modifica a ação estatal e o poder dos governantes. Fundada na noção de direitos e de criação de direitos a democracia está apta a diferenciá-los de privilégio e carências.

Um privilégio é por definição algo particular, que não pode generalizar-se em um interesse, nem universalizar-se num direito, sem deixar de ser privilégio. Uma carência é uma falta, também particular ou específica, que desemboca em uma demanda também particular ou específica, não conseguindo generalizar-se num interesse comum, nem universalizar-se em um direito. Um direito, ao contrário de carências e privilégios, não é particular nem específico, ele é geral e universal. Universal, seja porque ele é o mesmo válido para todos os indivíduos, grupos e classes sociais, seja porque, embora diferenciado, ele é reconhecido como um direito por todos, como é o caso dos chamados direitos das minorias.

Uma das práticas mais importantes da políticas democrática consiste justamente em propiciar ações capazes de unificar a dispersão e a particularidade das carências para que se tornem os interesses comuns e, graças a essa generalidade dos interesses, fazer com que elas alcancem a esfera universal dos direitos. Em outras palavras, privilégios e carências determinam a desigualdade econômica, social e política, contrariando o principio democrático da igualdade, de sorte que a passagem das carências dispersas a interesses comuns e dos interesses comuns a direitos é a luta pela igualdade.

Avaliamos o alcance da cidadania popular quando ela tem força para desfazer privilégios, seja porque os faz passar a interesses comuns, seja porque os faz perder a legitimidade diante dos direitos. E também quando tem força para fazer as carências passarem a condição à condição de interesses comuns e, desses, a direitos universais. O que caracteriza a democracia, retomando o que disse Valdir Pires, é que a democracia é o único regime político e a única forma social verdadeiramente histórica, ou seja, ela está aberta ao tempo, e ela está aberta ao tempo porque ela se define pela criação de novos direitos. Então, na medida em que a democracia é o processo contínuo de criação de novos direitos, ela é uma sociedade temporal e uma política temporal ou histórica no sentido forte da palavra.

Modificações da estrutura social do Brasil 

Eu passo então para o que aconteceu conosco nesse processo de consolidação democrática e o surgimento, todo mundo diz que surgiu uma nova classe média. Meu combate, meu embate, a minha luta é dizer que surgiu uma nova classe trabalhadora e não uma classe média.

Estudos, pesquisas e análises mostram que houve uma mudança profunda na composição da sociedade brasileira, graças aos programas governamentais de transferência de renda, inclusão social e erradicação da pobreza, à política econômica de pleno emprego e elevação de salário mínimo, a recuperação de parte dos direitos sociais das classes populares, sobretudo alimentação, saúde, educação e moradia, à articulação desses programas com o principio da igualdade social e o principio do desenvolvimento sustentável e aos primeiros passos de uma possível reforma agrária que permitam as populações do campo não recorrer à migração forçada em direção aos centros urbanos.

De modo geral, utilizando a classificação dos Institutos de Pesquisa de Mercado e da Sociologia de origem Norte-Americana, costuma-se organizar a sociedade em uma pirâmide seccionada em classes designadas como A, B, C, D e E, tomando como critério a renda, a propriedade de bens móveis e imóveis, a escolaridade e a ocupação ou profissão. Por esse critério chegou-se a conclusão de que, entre 2003 e 2011, as classes D e E diminuíram consideravelmente, passando de 26,2 milhões de pessoas a 63,5 milhões. Também no topo da pirâmide, houve crescimento das classes A e B, que passaram de 13,3 milhões de pessoas a 22,5 milhões. Mas a expressão verdadeiramente espetacular ocorreu na classe C, que passou de 65,8 milhões de pessoas a 105,4 milhões.

Essa expansão tem levado à afirmação de que cresceu a classe média brasileira, ou melhor, que teria surgido uma nova classe média no país. Sabemos, entretanto, que há uma outra maneira de analisar a divisão social das classes, tomando como critério a forma da propriedade. No modo de produção capitalista, a classe dominante é proprietária privada dos meios sociais de produção, o capital produtivo e capital financeiro. A classe trabalhadora, excluída desses meios de produção e neles incluída como força produtiva, é “proprietária” das forças de trabalho vendida e comprada sob a forma do salário.

Marx falava em pequena burguesia para indicar uma classe social que não se situava nos dois pólos da divisão social constituinte do modo de produção capitalista. Ele usava essa expressão para indicar, por um lado, a proximidade dessa classe do ponto de vista social e ideológico, com a burguesia e não com os trabalhadores. E por outro lado ele usava essa expressão para indicar que, embora ela não fosse proprietária privada dos meios sociais de produção, ela poderia ser proprietária privada de bens móveis e imóveis. Numa palavra, ela se encontra fora do núcleo central do capitalismo por não ser detentora do capital e dos meios sociais de produção e não ser detentora da força de trabalho que produz capital. Ela se situava, tempos atrás, nas chamadas profissões liberais, na burocracia estatal ou serviços públicos, na burocracia empresarial, a gerência, na pequena propriedade fundiária e no pequeno comércio.

É a sociologia – sobretudo de inspiração estadunidense – que introduz a noção de classe média para designar do setor socioeconômico, empregando os critérios de renda, escolaridade, profissão e consumo (não entra o critério de propriedade, se entrasse o critério da propriedade essa classificação estaria perdida). Produzindo assim as pirâmides das classes A, B, C, D e E, e a célebre ideia da mobilidade social para descrever a passagem de uma classe de um individua para outra. Se abandonarmos a descrição sociológica, se ficarmos com a constituição das classes sociais no modo de produção capitalista, e se considerarmos as pesquisas atuais e os números que elas apresentam relativos à diminuição e o aumento do contingente nas três classes sociais, nós poderemos chegar a algumas conclusões.

Primeiro, os projetos e programas de transferências de renda e garantia de direitos sociais – educação, saúde, moradia, alimentação – e econômicos – o aumento do salário mínimo, de pleno emprego, reforma agrária, cooperativas da economia solidária, etc. – indicam que o cresceu no Brasil foi a classe trabalhadora, cuja composição, entretanto, é complexa, heterogênea e não se limita aos operários industriais e agrícolas, porque a classe trabalhadora a partir da economia neoliberal não se situa apenas no campo do trabalho industrial. Esse é um ponto decisivo. Se a gente não levar em conta a modificação que a economia neoliberal produziu na economia, ao fragmentar a produção econômica, dispersá-la através do planeta inteiro e reuni-la apenas no momento final de montagem e consumo e, portanto desfazer as formas clássicas da classe trabalhadora, nós não vamos entender por que tem uma nova classe trabalhadora. Por exemplo, além da fragmentação que leva, por exemplo, a um crescimento, em determinados pontos do planeta, da economia familiar.

Um outro elemento é a terceirização, isto é, uma série de atividades que faziam parte da grande planta industrial fordista, deixaram de fazer parte dessa grande planta e foram terceirizadas. Em uma classificação anterior nós chamaríamos todos esse trabalhadores de trabalhadores a indústria. É porque terceirizou que nós dizemos que eles não estão na indústria, mas eles estão na indústria, eles são um ramo da indústria. Então a um conjunto de equívocos, sobretudo de tipo sociológico e econômico, que não permite compreender que tem, no mundo inteiro, não é só no Brasil, uma nova classe trabalhadora heterogênea, complexa, e que nós conhecemos muito mal por enquanto.

Em outras palavras, o crescimento de assalariados no setor dos serviços não é crescimento da classe média, e sim crescimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea definida por diferenças de escolaridade, habilidades e competências, que foram determinadas pela tecnociência. Mas a tecnociência é a grande força produtiva.

Eu sei que os intelectuais e cientistas ficam muito desesperados com essa ideia, porque eles sempre acharam que, se eram de esquerda, que eles se aliavam a trabalhadores, mas eles próprios não pertenciam à classe trabalhadora. Agora não tem jeito, a partir do momento em que a ciência e a tecnologia se tornaram força produtiva, os intelectuais e os cientistas são trabalhadores. Eles vão esbravejar, vociferar, eles vão ficar tristes, mas são parte constitutiva da classe trabalhadora. Eles estão fazendo acumulação de capital. Então [usar o] setor de serviço para definir classe média já era, não define mais, porque mudou o sentido do setor de serviços.

Então de fato, no capitalismo industrial, as ciências – ainda que algumas delas fossem autônomas, fossem financiadas pelo capital – se realizavam em sua maioria em pesquisas autônomas, cujos resultados poderiam levar a tecnologias aplicadas pelo capital na produção econômica. Essa situação significava que cientistas e técnicos pertenciam à classe média. Hoje, porém, as ciências e as técnicas se tornaram-se parte essencial da acumulação do capital, se tornaram as principais forças produtivas, e por isso cientista e técnicos passaram da classe média à classe trabalhadora como produtores de bens e serviços articulados à relação entre o capital e a tecnociência. Dessa maneira, renda, propriedade escolaridade não são critérios para distinguir entre os membros da classe trabalhadora e da classe média. De modo geral os da classe trabalhadora são muito mais sabidos, mais escolarizados do que a classe média que continua ignorante, que é a sua marca fundamental.

Terceiro, o critério da profissão liberal também se tornou problemático para definir a classe média, uma vez que a nova forma do capital levou à formação de grandes empresas de saúde, advocacia, comunicação, educação, alimentação, de maneira que seus componentes se dividem entre os proprietários privados dessas empresas e os assalariados delas, os advogados, os médicos, que devem ser colocados – mesmo que eles vociferem contra isso – na classe trabalhadora.

Quatro, a figura da pequena propriedade particular também não é critério para definir a classe média, porque a economia neoliberal, ao desmontar o modelo fordista – ao fragmentar e terceirizar o trabalho produtivo em milhares de microempresas, grande parte delas familiares, dependentes do capital transnacional – transformou esses pequenos empresários em força produtiva que, juntamente com os prestadores individuais de serviços – seja na condição de trabalhadores precários, seja na condição de trabalhadores informais –, é dirigida e dominada pelos oligopólios multinacionais. Em suma, os transformou em uma parte da nova classe trabalhadora mundial. Restaram, portanto, para classe media as burocracias estatal e empresarial, os serviços públicos, a pequena propriedade fundiária e o pequeno comércio não filiado às grandes redes de oligopólios transnacionais.

No Brasil, a classe média se beneficiou com as políticas sociais dos últimos dez anos. Ela também cresceu, prosperou, mas não há uma nova classe média no Brasil. Diremos que a nova classe trabalhadora brasileira começa finalmente a ter acesso aos direitos sociais e a se tornar participante ativa do consumo de massa. Como a tradição autoritária da sociedade brasileira não pode admitir a existência de uma classe trabalhadora que não seja substituída pelas miseráveis classes deserdados da terra, os pobres desnutridos, analfabetos e incompetentes, imediatamente passou a afirmar que existia uma nova classe média, pois é menos perigoso para a ordem estabelecida dizer isso do que admitir que uma nova classe trabalhadora surgiu como protagonista social e político.

Por mais que no Brasil as políticas econômicas e sociais tenham avançado em direção à democracia, as condições impostas pela economia neoliberal determinaram como vimos a difusão por toda sociedade da ideia da racionalidade do mercado como competição e promessa de sucesso. Visto que a nova classe trabalhadora brasileira se constituiu no interior desse momento neoliberal do capitalismo, marcado pela fragmentação e dispersão do trabalho produtivo, da terceirização, precariedade e informalidade do trabalho, percebido como prestação de serviço de indivíduos independentes que se relacionam com outros indivíduos independentes na esfera do mercado de bens e serviços, essa nova classe trabalhadora por isso se torna propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela ideologia da classe média. Em outras palavras, essa nova classe trabalhadora tende a aderir ao modo de aparecer do social que aparece como conjunto heterogêneo de indivíduos de interesses particulares em competição.

Ela própria, a classe trabalhadora, tende a acreditar que faz ela parte de uma nova classe média brasileira. À guisa de conclusão, se a política democrática corresponde a uma sociedade democrática e se no Brasil a sociedade é violenta, autoritária, hierárquica, vertical, oligárquica, marcada pelos preconceitos étnicos e de classe, polarizada entre a carência e o privilégio, só será possível dar continuidade a uma política democrática enfrentando essa estrutura social.

Propostas

A ideia de inclusão social não é suficiente para derrubar essa estrutura social e a polarização carência/privilégio. A polarização só pode ser enfrentada se o racismo e o privilégio de classe forem enfrentados. E eles só serão enfrentados, creio eu, por meio de quatro grandes ações políticas: 1. A reforma tributária, que opere sobre a vergonhosa concentração da renda e faça o Estado passar da política de transferência de renda para distribuição e redistribuição da renda. 2. A reforma política, que dê uma dimensão republicana às instituições públicas e permita redefinir o sentido público da representação. 3. A reforma social, que consolide o Estado de Bem-Estar social com uma política de Estado e não como um programa de Governo. 4. E uma política de cidadania cultural que comece pela educação e alcance o conjunto das artes de maneira a desmontar o imaginário autoritário, quebrando o monopólio da classe dominante sobre a esfera dos bens simbólicos e a sua difusão, e quebrando a sua conservação por meio da classe média.

Mas a ação do Estado só pode ir até esse ponto. O restante, para construção de uma sociedade democrática, igualitária e sem racismo só pode ser a praxis dos movimentos sociais e populares organizados como sujeito de sua ação, isto é, como autênticos representantes de suas demandas, reivindicações e direitos. Obrigada!"


Professora Doutora Marilena Chauí, da Universidade de São Paulo

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Boa Notícia!
O trabalho da professora Cristiane e da Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa Lobos levará a equipe Lobóticos para a Holanda, representando o Brasil na Robo Cup 2013- a etapa mundial da olímpiada de Robótica. 
É bom ver um trabalho na nossa rede municipal com continuidade (iniciou em 2007), com professor com carga horária para se dedicar ao projeto, apoio da SMED, da Escola e da comunidade. 

Boa sorte à equipe de robótica da Escola Heitor Villa Lobos! Acreditar e investir dá certo!

Retirado do site do Jornal do Comércio em 07/06/2013

Alunos da Capital disputarão olimpíada de robôs na Holanda

Cláudia Rodrigues Barbosa


JONATHAN HECKLER/JC



Equipe Lobóticos aposta na conquista do primeiro prêmio internacional
Diordan Melo Maciel estuda na Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa Lobos, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Aos 14 anos, ele é um dos 14 alunos da Equipe Lobóticos que se prepara para embarcar para a Holanda, onde representará o Brasil na Robo Cup 2013 – a etapa mundial da Olimpíada de Robótica, no dia 24 deste mês.

“Eu vi meus colegas montando robôs com legos e quis participar das aulas de robótica. Foi assim que isso tudo começou para mim”, conta ele. No ano passado, o grupo venceu a etapa regional e a nacional da Olimpíada Brasileira de Robótica, na categoria Ensino Fundamental, além de ter conquistados outros prêmios na área. Agora, os Lobóticos vão competir internacionalmente.

“Somos os únicos representantes do País na categoria Resgate de Robôs”, informa a professora de Robótica Educacional da escola e coordenadora da equipe, Cristiane Cabral. Ela destaca que o pré-requisito para viajar é que todos os integrantes tenham ótimo desempenho escolar. “É uma condição para que a viagem seja financiada pela Secretaria Municipal de Educação”, explica. Além dos 14 jovens, vão para a Holanda Cristiane e a também professora Juliana Dalmann.

Os Lobóticos irão concorrer em Resgate de Robôs nível 1 e Dança de Robôs. No primeiro projeto, é simulado um ambiente acidentado com vítimas e o robô precisa realizar o salvamento. No segundo, será avaliada a apresentação de dança de robôs e alunos.

Os títulos já conquistados nas competições de robótica pela equipe extrapolaram em muito o ambiente escolar. A escola de idioma Cultural está proporcionando um curso de inglês, por meio de um programa da embaixada norte-americana, para o grupo que vai para a Holanda. “O curso será estendido até o final do ano, e o Cultural fornece o material e o transporte para eles”, diz Cristiane.

A iniciativa, que começou com peças de lego, mudou a vida dos adolescentes. Há dez anos na escola, Cristiane relata que a robótica trabalha com resolução de problemas e amplia as oportunidades para esses jovens. “Sem contar que abordamos pontos cognitivos muito importantes”, ressalta. Diordan, por exemplo, quer vencer a etapa mundial e espera ser engenheiro mecânico ou eletrônico.

Em sete anos, Lobóticos ganharam diversos prêmios

O projeto de robótica na escola teve início em 2007, quando a rede municipal de educação recebeu da prefeitura peças de lego específicas para as atividades de robótica educacional. Os itens possuíam sensores e motores para os estudantes construírem objetos com movimentos que pudessem ser programados por um computador, sem apresentar riscos.

Dois anos depois, a atividade passou a ser complementar às aulas, e é oferecida no turno inverso para incentivar os alunos a ficarem mais tempo na escola. “Os projetos dos alunos foram se aperfeiçoando tanto que fomos participando de competições e apresentando pesquisas em salões de ciência e tecnologia, com destaque. Em 2010 e no ano passado, conquistamos muitos prêmios”, lembra a professora. Entre os títulos, estão o Salão Ufrgs Jovem 2012 e o Prêmio de Iniciação Científica do Museu de Ciências e Tecnologia da Pucrs 2012.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Em um país nº 1 da educação, um item essencial é o respeito ao professor

No Brasil há muitas Escolas com Projetos educacionais excepcionais. Na rede municipal de Porto Alegre e na Escola onde atuo, não é diferente. Então, o que falta para dar certo na Educação Pública Brasileira? 



O diálogo e a experiência de outros países podem nos ajudar a refletir, compreender e construir alternativas para nossos problemas.



Nesta semana, li mais uma matéria sobre o ensino na Finlândia. Costumo brincar com outros professores que a gente precisa ir para lá, trabalharemos menos e com menos frustração, estudaremos mais e seremos reconhecidos e valorizados como profissionais. 

Quem não atua nesta área e na periferia das grandes cidades, por favor, não escute apenas as falas das pessoas acadêmicas ou o discurso dos políticos em relação a educação e aos professores. Há uma distância enorme entre o que se diz e o que se faz no Brasil. 
No discurso educação é prioridade sempre e os professores são uns heróis. Mas não é bem assim. Para ver a contradição é necessário olhar os dados educacionais, os recursos investidos nesta área, analisar as pesquisas e as falas dos professores e alunos, e também ver como a cultura, a violência do entorno social, as drogas e a saúde afetam a dinâmica e a vida dentro de uma Escola.

Na reportagem sobre a educação na Filândia percebo muitas diferenças com o Brasil e realmente acredito que não teremos uma educação de qualidade se não superarmos algumas destas dificuldades. Que fique claro não estou dizendo que temos que copiar o modelo deste país. 
Na entrevista, a professora brasileira na Finlândia, deixa muito nítido as principais diferenças com a nossa realidade:

- Ser professor na Finlândia é ser respeitado diariamente, tanto quanto qualquer outro profissional;

- O segredo do sucesso do sistema finlandês de ensino não tem nada a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da tecnologia em sala de aula ou avaliações nacionais. O lema é treinar o professor e dar liberdade para ele trabalhar;

- O respeito pelo próximo é algo muito enraizado na cultura;

- Total liberdade para avaliar o aluno, se tem uma lista de coisas que ele tem de aprender até o fim do ano, mas como fazer fica a critério do professor;

- Casos de violência ou bullying* são muito raros nas escolas;

-  Existe um plano para cada tipo de aluno;

- Existe um comprometimento dos alunos, dos pais e da comunidade com a aprendizagem e eles aprendem que o respeito e a honestidade vem em primeiro lugar;

- Um professor quando adoece pode ausentar** até 3 dias, porque se confia na sua palavra;

- Não precisa-se aplicar prova a toda hora, nem justificar nada para o coordenador;***




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* A professora na reportagem relata que no Brasil sofria bullying e que os professores não tem o respeito dos pais.


**Lembrei da burocracia que passei estes dias quando meu filho ficou doente, precisei em 24 horas buscar um laudo na escola, ir na biometria da prefeitura e ter um atestado médico preenchido adequadamente, segundo ofício tal... caso contrário não seria aceito, e ficaria com falta funcional. Além de lidar com o estresse da situação da doença do seu familiar, ou a sua própria, você precisa ficar correndo de um lado para outro. Bom não preciso dizer que quando é você a pessoa doente, isto fica muito pior.

*** Não faço ideia, mas sei que não foram poucas as fichas sobre perfil de turma, diagnóstico, avaliação, conteúdos, objetivos, cadernos de disciplina e etc... que foram preenchidos  nestes 3 primeiros meses a pedido da supervisão da Escola.

Abaixo trechos da reportagem:

‘Me sinto uma rainha’, diz brasileira professora no país nº 1 em educação


Publicado em 3 de junho de 2013 por Pavarini

Luciana Pölönen dá aulas de português em Espoo, na Finlândia (Foto: Arquivo pessoal)Luciana Pölönen dá aulas de português em Espoo, na Finlândia (Foto: Arquivo pessoal)


Vanessa Fajardo, 


País com a melhor educação do mundo, a Finlândia tem entre os seus professores da rede pública uma brasileira. Luciana Pölönen, de 26 anos, nasceu em Salvador (BA), é formada em letras pela Universidade Federal de Bahia (UFBA) e se mudou para Finlândia em 2008, com objetivo de fazer mestrado. Desde 2010, compõe o corpo docente finlandês. No país do Norte da Europa, mais do que emprego, ela encontrou a valorização da profissão de lecionar.


“Eu me sinto como uma rainha ensinando aqui. Ser professor na Finlândia é ser respeitado diariamente, tanto quanto qualquer outro profissional!”, afirma a brasileira, que se casou com um finlandês, tem uma filha de três anos, Eeva Cecilia, e está grávida à espera de um menino. “Aqui na Finlândia o sistema é outro, o professor é o pilar da sociedade.”


A comparação com sua experiência escolar no Brasil é inevitável. “No Brasil só dei aulas em cursos, mas estudei em escola pública, sei como é. Sofria bullying, apanhava porque falava o que via de errado e os professores não tinham o respeito dos pais”, diz Luciana.


Por quatro anos consecutivos, a Finlândia ficou entre os primeiros lugares no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mede a qualidade de ensino. Durante visita em São Paulo, na semana passada, a diretora do Ministério da Educação e Cultura, Jaana Palojärvi, disse que o segredo do sucesso do sistema finlandês de ensino não tem nada a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da tecnologia em sala de aula ou avaliações nacionais. O lema é treinar o professor e dar liberdade para ele trabalhar.


Luciana aprova o método. Há dois anos dá aulas na Escola Europeia de Helsinque, capital da Finlândia, de nível fundamental e médio e há um ano leciona português em uma escola de ensino fundamental em Espoo, cidade próxima à capital. “Dou aula de português porque toda criança falante de duas línguas tem o direito ao ensino de uma língua estrangeira na escola. Ou seja, todos os filhos de brasileiros têm direito ao ensino de português como língua mãe.”


(...)


“Tenho total liberdade para avaliar meu aluno, tenho a lista de coisas de que ele tem de aprender até o fim do ano, mas como vou fazer fica a meu critério. Não preciso aplicar prova a toda hora, nem justificar nada para o coordenador”, afirma. “Temos os alunos aprendem porque há um comprometimento deles, dos pais e da comunidade. “Eles aprendem o respeito desde pequenos, a honestidade vem em primeiro lugar. As pessoas acreditam umas nas outras e não é necessário mentir. Um professor quando adoece pode se ausentar até três dias. Funciona muito bem.”


Para Luciana, os alunos aprendem porque há um comprometimento deles, dos pais e da comunidade. “Eles aprendem o respeito desde pequenos, a honestidade vem em primeiro lugar. As pessoas acreditam umas nas outras e não é necessário mentir. Um professor quando adoece pode se ausentar até três dias. Funciona muito bem.”


Luciana voltou a trabalhar quando a filha tinha apenas um mês. Era um trabalho de tradução que às vezes fazia de casa ou ia até a empresa que ficava próxima à sua casa. Escapava para amamentar no intervalo do café. “Aqui a licença maternidade dura três anos, as pessoas achavam um absurdo eu trabalhar com uma filha de um mês. Na verdade faz parte da educação deles, hoje eu entendo mais.”


O respeito pelo próximo também é algo muito enraizado na cultura do finlandês. Luciana diz que diferente do Brasil, nunca sentiu preconceito na Finlândia por ser negra ou estrangeira. “Aqui as pessoas não parecem notar a cor de pele do outro contanto que exista respeito mútuo.”


Casos de violência ou bullying são muito raros nas escolas. “Foram cinco casos de violência no ano, mas para eles é um absurdo, não deveria acontecer. Eles sempre têm um plano para cada tipo de aluno, não é uma única forma para a classe inteira. No final, todos alcançam o mesmo objetivo.”(...)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Projeto de satélite em Escola Municipal de São Paulo

Dois fatos fizeram eu voltar a postar neste blog:
- Conversando com amigas elas salientaram a importância de se fechar os ciclos/projetos que realizamos  em nossa vida;
- Pela manhã vi uma imagem de um veículo/robô e senti uma enorme saudade do projeto de robótica, e a impossibilidade deste ser executado, na Escola, mesmo que de forma assistemática como vinha acontecendo.

Então, resolvi fechar o ciclo e reaproveitar este blog para guardar ideias e projetos interessantes no campo da tecnologia, linguas, artes  e ciências.

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Projeto satélite leva alunos da E. M. Tancredo Almeida Neves, de Ubatuba, litoral norte de São Paulo à Estados Unidos e Japão.


Nesta quarta-feira eles embarcam para o Japão para participar do Simpósio Internacional de Ciência e Tecnologia Espacial, patrocinado pela Agência Espacial Japonesa.

Há dois anos, depois de ver um artigo em uma revista de ciências dizendo que era possível construir um satélite e mandá-lo para o espaço com cerca de R$ 14 mil, o professor de matemática Candido Osvaldo de Moura decidiu iniciar um projeto de construção de satélite com os alunos do 6º ano.

Assim nasceu o projeto UbatubaSat, que transformou os estudantes brasileiros, de acordo com a empresa que vendeu o satélite, nas pessoas mais jovens do mundo a terem se envolvido em um projeto espacial.

O objetivo era despertar nos estudantes o interesse pelas áreas de tecnologia e ciências, e ajudar a suprir a carência de profissionais nessas áreas no Brasil.

Nasa

Além de já ter conquistado vários estudantes que agora decidiram seguir carreira em áreas de engenharia, o projeto já levou os alunos para conhecer os Estados Unidos, onde visitaram a Nasa (agência espacial americana), e agora, ao próximo destino – o Japão. Eles escreveram um artigo sobre a influência do projeto em jovens de Ubatuba, e o material foi aceito pelo simpósio.

Com a ajuda dos governos municipal e federal e as passagens compradas pela Unesco (braço da ONU para a educação), 12 estudantes e quatro professores representarão o Brasil no congresso espacial do Japão.

Para o prefeito de Ubatuba, Mauricio Maromizato, o projeto ajuda a disseminar a cultura na tecnologia em um região muito marcada apenas por atividades turísticas e pesqueiras, onde “a juventude nunca teve outros horizontes.”

Como parte de projeto, alunos e professores receberam treinamento no Instituto Espacial de Pesquisa Espacial (Inpe). De acordo com Antonio Ferreira de Brito, técnico eletrônico de desenvolvimento de hardware, “esta foi a primeira vez que o instituto forneceu treinamento para crianças desta idade”.


Brasileiros são descritos como os mais jovens a participar de um programa espacial
O lançamento do satélite está atrasado, mas o professor Candido diz que a escola municipal não vai desistir e está à procura de verbas para fazer o lançamento através de um outro foguete espacial comercial.



Quando o satélite entrar em órbita, ele enviará uma mensagem em português, inglês e espanhol, a qual será escolhida em uma competição na escola.



Independente do lançamento, para Candido Moura o projeto “já é um sucesso”. Agora, a ideia é expandir a proposta, e novos pequenos cientistas já começam a serem treinados.

Texto acima retirado: http://www.livrosepessoas.com/2013/05/31/projeto-com-satelite-leva-alunos-de-escola-municipal-brasileira-a-eua-e-japao/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+livrosepessoas+%28Livros+s%C3%B3+mudam+pessoas+%3A+%29%29